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Terça-feira, Julho 07, 2009

Através de Benedetti

Minha mão direita é uma andorinha
Minha mão esquerda é um cipreste
Minha cabeça, de frente, é um senhor vivo
E, por trás, é um senhor morto.

Vicente Huidobro

Sábado, Julho 04, 2009

Bartolomeu Sozinho

"- Tens medo de fazer amor comigo?
- Tenho - respondeu ele.
- Por eu ser preta?
- Tu não és preta.
- Aqui, sou.
- Não, não é por seres preta que eu tenho medo.
- Tens medo que eu esteja doente...
- Sei prevenir-me.
- É porquê, então?
- Tenho medo de não regressar. Não regressar de ti."


Mia Couto. Venenos de Deus, remédios do Diabo.

Quarta-feira, Junho 24, 2009

Paixões platônicas-baianas


Eu queria casar com ela. E acordar com ela cantando pra mim.

Filosofia barata e cruel

Toda oportunidade representa um risco. Mas nem todo risco guarda uma oportunidade.

Segunda-feira, Junho 15, 2009

Viagem

“Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver.”

Amyr Klink

Terça-feira, Junho 09, 2009

Próximo

De um lado, o amigo rude, dono das verdades cortantes. Se a sinceridade legitimasse nossas ações, aquele seria um sujeito completo. Mas não é o caso, e o mote "só falo a verdade" pode esconder uma crueldade que pede distância. Ou pelo menos que se estabeleça algum tipo de pacto no vínculo: até aqui, compartilhamos verdades. Daqui em diante, seguimos em mentiras separadas. Vidas separadas. Provavelmente bons conselhos saem daquela boca. Mas como é díficil ouvi-los quando o objetivo daqueles verbetes serve mais para sua auto-afirmação do que para se aproximar do outro.

E do outro lado o irmão que não sabe onde colocar as mãos. Não sabe onde colocar as palavras. Toda aquela ternura desmedida, que não sabe pegar o metrô e chegar ao outro. Perde-se pelo caminho. O amor é sempre uma cidade estrangeira, então ele se apega as pequenas vitórias, como chegar até a padaria da esquina e conseguir pedir um café. Chegar ao outro e dizer-lhe do seu afeto, do seu amor, seria praticamente como chegar em Nova York com aquele inglês da escolinha e na primeira noite estar ouvindo versos apaixonados de uma artista "experimental" no jardim botânico do Brooklyn. E apenas com olhares, deixá-la plena em sua volúpia. Não é um exagero. Aquele era um sujeito do bem, apesar de suas doses exageradas de bom mocismo e essa sina de querer carregar o peso do mundo nas costas. Muitas vezes conseguimos supor o quanto aquela pessoa provavelmente deve gostar da gente. Mas, nesse quesito afetivo, digo com a pior das propriedades possíveis, suposições não enchem barriga.

O primeiro diz: tem que meter a boca mesmo. Falar umas verdades.
O segundo retruca: não, cara, tem que ajudar, o que falta é alguém pra ajudar.

Esse que vos escreve diz: Mais "verdades" só vão causar mais repulsa. E ajudar? Você não é nenhuma madre teresa.

Ao invés disso: Aproxime-se.

Sábado, Junho 06, 2009

Há um ano atrás

Em 2008, primeiro projeto pela TV1, para o Dia dos Namorados: Radiola do Amor, da Brasil Telecom.

Ser e estar

Existem esses momentos em que precisamos enfrentar certos desafios de frente.
Mas quando estar sozinho passa a ser um desafio, confesso que fraquejo.
Sempre lidei bem com isso. Já vão quase dez anos de desacolhida, de vôo além-ninho.
O problema, veja bem: Não é ser sozinho. Disso, me construi. O problema é estar sozinho.

- Foi assim que ele me explicou. E partiu.

Sábado, Maio 23, 2009

Muito mais

Ela contou do meu olhar, disse que era provocante em alguns momentos, e aconhegante em outros. Eu estava naquele momento estranho, numa rotina contra a mediocridade dos dias. A repetição não é o problema em si. Andar é uma repetição de passos. A questão é: para onde esses passos estão te levando? Eu não soube lidar com seu charme.
A verdade é que minha vida poderia mudar completamente apenas com um punhado daquele encanto, com algumas noites compartilhadas daquela paixão que se anunciara. Mas para mudar a vida dela de alguma forma, eu precisaria doar muito mais. Muito mais dedicação, cuidado, muito mais de mim.

Nesse momento lembrei de uma frase que recebi num bar em Montreal. Nunca tive certeza se concordava. Traduzi aqui.

"Um homem pode se transformar com um acorde. A mulher precisa da melodia completa."

Eu me apaixono até com o silêncio.

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Porteiro

O porteiro me olhou com aquele ar tristonho, me lembrou o gato de botas do Shrek. E falou assim:
- Muito trabalho né seu Vitu? Nunca mais parou aqui pra gente prosear.

No olhar, algo se anunciava. Na fala, nas entrelinhas do sotaque, percebi que ele tinha flagrado. Ele sabia e estava com um certo ciúme.

Eu estava passando mais tempo conversando em outra portaria. A do lugar onde eu trabalho. Tomando cafés de madrugada com o porteiro-showman da TV1, o Manuel.

Respondi com a esperança de que novas disponibilidades surgirão. Era o possível naquele momento.

Todo homem precisa valorizar seus vínculos com essas figuras: os guardiões dos portais que adentramos no cotidiano. A sabedoria de quem entende das entradas e saídas dessa vida confusa.

Sábado, Maio 02, 2009

citação interna

"Sua única chance de ser bonito era através dos olhos dela."

Quarta-feira, Abril 29, 2009

Sangue

- Olhei bem em seus olhos e compartilhei minha profunda crença naquelas palavras.

Coração? É só o ínicio. Mas definitivamente não é o órgão do amor. A cabeça, o cérebro? Só porque controla as terminações nervosas? Quando você dói de amor você tem dor de cabeça? Claro que não é na cabeça, apesar de todos os racionais terem argumentos para isso.
O órgão do amor é o sangue. Está em todo lugar. Exceto nas partes mortas, como cabelos e unhas. Quando é pleno, o corpo inteiro vibra, parece um carnaval gritando por dentro. Quando dói, possui essa preciosa habilidade de doer em todo lugar a ponto de você não saber onde dói. O amor não tem dor localizada. O coração é o órgão da paixão, talvez. O ínicio de tudo. O ínicio do amor. Bota pra fora: vai pro resto do corpo e quando voltar me diz se virou amor ou tudo já se acabou.
Por isso menino, nada como doar sangue após uma desgraça amorosa.

- Eu quase não consegui levantar para fazer o teste de sangue.

O segredo do goleiro

45 minutos. Segundo tempo.
O melhor é não pensar em quanto tempo de acréscimo teremos. Para quem está em campo, isso não importa mais. É preciso apenas um gol. O desespero é latente em todos os rostos. O problema do desespero é que ele não te leva a lugar nenhum. Dificilmente uma atitude tomada em pleno desespero vai te ajudar. Foi nesse momento que ele lembrou. Era o goleiro. O time inteiro dividido entre o pânico e o desespero. Escanteio. Lá do outro lado do campo. O goleiro respirou fundo, fechou os olhos, e quando abriu já estava na outra metade do campo. Acreditando que o goleiro estava sendo movido pelo mais completo desespero, metade do time encarou aquilo como uma confissão de falência, e a outra metade tentou tirar motivação daquela cena, mas estavam desesperados demais para qualquer movimento sadio. O goleiro sabia que era o único com condições de ressignificar o desespero e partir pra frente. E fez. Mas obviamente isso não era suficiente, não existem milagres e ao contrário do que ele ouvia no programa da Xuxa quando criança, não basta querer muito alguma coisa. Você precisa ter um plano pra conseguir. Uma estratégia. Inventar um jeito. Motivação sozinha é como desespero: não te move pra frente, só de um lado pro outro.
O goleiro olhou bem firme para seu companheiro que estava prestes a bater o escanteio. E fez um gesto com a mão como quem diz: "sou eu quem está aqui". Ninguém mais entenderia. Mas ele entendeu. Ajeitou novamente a bola. A estratégia do goleiro era simples mas era o melhor aliado que sua sorte poderia ter. Ele deu o primeiro passo dentro da área adversária pensando não como mais um jogador. Mais um atacante atônito e desesperado do seu time. Esses caras tiveram tempo suficiente para fazer um gol. E não conseguiram. Ele não podia agir como um atacante ordinário. Naquela área repleta de zagueiros suados e nervosos, ele precisava de algo inusitado. Ele precisava pensar como um goleiro. Nisso, ele tinha bastante experiência. O goleiro adversário olhou para ele de uma maneira estranha. Todos os zagueiros adversários pareciam zombar do goleiro querendo fazer o gol. Apenas o goleiro adversário teve aquele péssimo pressentimento, como se reconhecesse ali um profundo conhecedor de todas as suas fraquezas.

O escanteio foi batido. Não vou descrever o lance, porque sou um péssimo narrador esportivo.

O goleiro pensou e agiu como um goleiro. E fez o gol. Num lance rápido, o juiz não percebeu mas o gol teve uma leve ajuda da mão esquerda. Não sei se era de Deus, como naquele gol do Maradona. Mas o fato é que o gol foi validado. E não existe injustiça no futebol, apesar de todo o rebanho de lamentações. Existem paixões e um resultado.

O goleiro fez o que somente ele poderia ter feito. E fez a diferença.

Segunda-feira, Abril 27, 2009

Viventes

Eliane Brum, terminei teu artigo sem saber se queria casar contigo ou ir pra casa e finalmente chorar leve.

"Por que sobrevivemos à grande queda ou às sequências de pequenos, mas dolorosos tombos? Porque não sobrevivemos. Percebo que não há como sobreviver, só o que podemos fazer é viver. Reinventar a vida incluindo nela o sangue, o barro e o limo do fundo do poço. Criar um sentido para o que aparentemente não tem nenhum. Não existem sobreviventes. O que existe são viventes."

Domingo, Abril 26, 2009

Fran

Sobreviventes III

O choro de Merten.