26 de maio de 2012

Muitos jeitos

Eu tenho esse problema na cabeça, sabe. Tenho uma memória rala, uma alma que não retém nem poeira. Eu não lembro mais todas as coisas que eu falei pra ela naquele dia. Mas não importa. Ela é essa pessoa que vai embora da sua vida e você nunca vai poder dizer que sua vida ficou melhor sem ela. Nunca. Ela passa pra te mostrar como toda essa maluquice pode ser fantástica, e você finalmente entende porque chamam isso de vida. Depois, ela vai embora e você nunca mais vai sentir o mesmo gosto. Acho que ela acabou levando algo de mim que era vital para sentir aquilo tudo. Existem muitos jeitos de viver a vida. E, não se engane, também existem muitos jeitos de morrer a vida. A morte é só o mais conhecido.

6 de maio de 2012

Joelmir

Joelmir trabalhava num estacionamento para jegues em Jequié. Todas as manhãs, os jegues chegavam e deixavam seus homens ali, estacionados, e partiam para a labuta cansativa do dia-a-dia. Enquanto os jegues trabalhavam, seus homens recebiam um polimento nas dobraduras dos desesperos. Joelmir tinha cócegas anônimas dentro do seu rosto sem feição. Com um graveto, rabiscava no chão coisas que não se pareciam com nada. Cada coisa estranha que Joelmir rabiscava no chão, era casada com alguma coisa que existia no mundo, e que os homens ali sentados conheciam. Os homens foram testemunha do batizado, nascia ali palavras. Uma magia silenciava perguntas sobre a utilidade daquilo. Ele inventou esses atrevimentos. O filho de Joelmir sobrevoava suspiros em cima da chancela. Dizia-se que tinha os dias contados. E sua sina era ser porteiro do estacionamento. Ninguém nunca chamou o filho de Joelmir. Era um menino sem chamamentos. Se tinha um nome, entrou em desuso. Apenas ele mesmo se chamava, por dentro: Jorrim, venha cá, e ele ia pra dentro de si. Ele passava todos os dias invertido aos rabiscos no chão, invertido ao céu. Invertido é uma pessoa que ficou divertido só pra dentro. E por fora, ninguém sabia. O filho de Joelmir tinha um umbigo bem na cabeça do pinto das idéias. Ninguém nem achava de coitado ele porque em Jequié ninguém é coitado. Porque coitado é uma coisa úmida. Em Jequié o que não é seco, já é outra cidade. Ele mijou uma idéia no chão. Ninguém entendeu. Até o mijo tinha carência de lágrima. Tinha sido a primeira vez que ali no chão tinha um rabisco, ainda que de mijo, que não namorava com nenhuma coisa do mundo. 
Ninguém nunca viu essa tal de idéia. Joelmir disse que todas as coisas que não dá pra enxergar precisa inventar palavra para marcar sua existência. Os homens ficaram perplexos. Os jegues chegaram. Cada jegue pegou seu homem e foi embora. Nenhum jegue trouxe mais seu homem para o estacionamento de Joelmir, com sua fama de endoidecimento. Joelmir agora cuida de um estacionamento de vento. Deus mandava os ventos irem no estacionamento, enquanto ele andava pelo mundo pra trabalhar. Deus está em todo lugar, por isso nunca tinha tempo para ir em Jequié.


Texto embrião de um livro inacabado, 2005.

24 de abril de 2012

Gengiva

Então eu entrei nesse lugar onde todas as pessoas pareciam saber usar bem o fio dental e só era permitido subir ao camarote quem tinha feito clareamento nos dentes. Tentei me aproximar das garçonetes, imaginando uma pretensa identificação de classe, mas mesmo elas tinham um hálito delicioso e sabiam introduzir citações inteligentes entre a oferta de uma bebida e outra. Eu não me senti inadequado, porque não tenho a mínima ideia de qual seja a sensação de adequação. Sempre achei esse papo de 'senso de pertencimento' um psicologismo simpático para amenizar o inevitável. A boca é um cemitério pouco sagrado por onde a maioria absoluta dos desejos humanos precisam passar em algum momento. Uma espécie de Marginal, com o agravante que o desejo só aceita o odor que emana da sua própria equação. Os desejos não são paulistas acomodados que vivem, nascem e se reproduzem sem precisar sair da sua zona. Não demorou muito até que as pessoas percebessem que eu não deveria estar ali. Por mais que eu tentasse, eu não conseguia fazer um olhar perdido e me vitimizar, numa tática para alcançar alguma piedade e consequentemente um ínicio de papo. Eu estava deslumbrado com aquele desfile de sorrisos cheirosos, aquelas bocas com uma capacidade tão grande de falar, mesmo coisas completamente desinteressantes. As garçonetes já estavam apostando quanto tempo eu sobreviveria ali. Não consegui saber em quanto estava o bolão, mas eu sabia muito bem que ninguém ali ganhava menos de cinco mil reais para desfilar com bebidas, sorrisos e uma beleza, dessas de deixar qualquer produtor de casting da Califórnia de pau duro.
Eu já estava sucumbindo, quando encostei num móvel bonito, onde só quando vi o barman percebi se tratar da quina do bar. Achei que se eu pegasse o celular para checar o twitter e preencher o tempo, seria como pedir penico. Eu geralmente não sou competitivo. Só comigo mesmo. E aquele era um momento desses. Até que ouvi essa voz, que tropeçava pelas palavras quase como se não fosse necessário completar a frase para ser compreendida:
- Você também tá aqui por obrigação.
Não foi uma pergunta. Então minha reação foi um sorriso tímido e um mergulho profundo nos olhos dela. Me senti um índio pataxó com a coragem para olhar tão fundo nos olhos do outro, sem o desvio natural da vergonha e da civilidade. Ela desviou uma, duas e na terceira percebeu que já era tarde, e não dava mais tempo para voltar pra superfície.
- Você é do marketing? Da produção? Ou da agência?
Eu fui sincero. E respondi: Ainda não sei. Finalmente ela sorriu. Eu sou engraçado quando consigo uma distância de pelo menos cem metros da intenção de ser. O sorriso foi uma recarga de oxigênio no mergulho. Numa festa repleta de sorrisos odontologicamente perfeitos, o destaque foi uns dentinhos separados à la Bardot. Até que arrisquei: A minha obrigação essa noite era te encontrar.

Acordei no dia seguinte. Com ela do meu lado da cama. Não consegui esconder meu semblante assustado, quase um ato reflexo. Ela me explicou que um segurança que estava me observando, me bateu na nuca, e eu desmaiei. E que do hospital, ela tinha resolvido me trazer pra casa dela, culpada de alguma maneira pela situação. Levantei, escovei os dentes e nunca mais voltei pra casa. Esqueci por completo de toda a vida que eu tinha tido até então.

Nos casamos, eu me tornei um dentista renomado e o resto é pura invenção.

26 de fevereiro de 2012

Sono e saúde

Meu sono nunca me lembrou saúde. Ele esta profundamente conectado com depressão. Eu durmo muito quando não quero viver. Por isso, quando fico um ou dois dias sem dormir, significa que venci uma pequena batalha nessa guerra. Dormir pouco é uma luta pela vida. O melhor sono será sempre o que não precisou existir. O segundo melhor é aquele que quase não percebo - pelo cansaço do corpo, da alma. Raramente tenho esse.

11 de fevereiro de 2012

Momento melhor

O que me surpreende é que, há qualquer momento eu poderia ter morrido. Poderia ter tropeçado, ter tido uma dessas doenças estranhas, ter sido atropelado - quantas vezes atravessei a rua sem atenção, poderia ter levado um tiro naquele carnaval. Mas não. E justamente agora, quando finalmente consigo contar-te algo que desperta seu sorriso, chega a minha hora. Eu não poderia imaginar um momento melhor.

5 de fevereiro de 2012

"Eu quero viver na sua memória. Qualquer coisa que eu fizer, mesmo que completamente equivocada, tem apenas esse objetivo. Eu já caminhei bastante, já vivi algumas coisas, já conheci umas pessoas. Nenhum lugar, nenhum, me deixou mais pleno do que dentro das lembranças que você tem de mim. E eu sei que quando você começar a esquecer alguns detalhes, sua imaginação vai ajudar." 

Um dia, mais um dia, aquele dia, todo dia.

4 de fevereiro de 2012

Rasgo

Ela sabe que pode. Mas não pode o que sabe. Ela me olha com tesão. Ela diz não jogar. Ela avisa que vai gozar com certa angústia. Mas o jogo diz muito sobre ela. O tesão, quando adulto, gosta de ouvir mais do que de enxergar. Não existe casualidade no sexo e por isso inventaram o sexo casual. É fácil desejá-la. Ela inventa regras para um jogo que ainda não existe. E por isso, repete, que não joga. Eu não sei o fácil, e essa é minha maior cicatriz. Ela gosta de cicatrizes. Um pouco antes do segundo orgasmo, imaginei que meu pau fosse a minha maior cicatriz. E talvez seja. Ela quer o melhor poema, não o livro inteiro. Insiste no refrão, com medo de que a melodia cresça e queira ser trilha sonora. De uma vida que não há espaço para o movimento entre um prazer e o outro. A felicidade não é um lugar, e também não é um instante. É um movimento, que conecta. Seu corpo é menos do que ela diz e mais do que ela realmente acha. Para se livrar desse impasse, ela sabiamente usa a boca. Para dizer, para silenciar e para o infinito que cabe entre esses dois mundos. Ela prefere me ter na memória, do que no risco do compromisso. Mas a memória é amante da imaginação, e pode te trair mesmo permanecendo fiel. Para fazer sexo, basta ter um pau ou uma buceta. E ela sabia disso, e mesmo com receio, ela não queria apenas fazer sexo. Mesmo que sexo nunca seja apenas. Esse é um texto longo, eu disse. Ela arrancou a primeira página e foi embora com alguns orgasmos, um cheiro suave de sexo e o medo de si mesma. Todo amor termina com um rasgo. Nem que seja o da morte. Eu a amei porque seu medo me alimentava. Mas, apesar de um delicioso jantar, não era o suficiente para o café-da-manhã. Eu sofro porque acreditei. Mas já faz muito tempo que o sofrimento não é gasolina suficiente para essa ignição.

9 de janeiro de 2012

Aqueles olhos fundos, quando a cor da retina fica úmida, aquele olhar que não deveria ser descrito, mas aqui estamos nesse erro. Ninguém fica melhor depois do sofrimento. E toda a bibliografia que melhora a humanidade, talvez a torne menos úmida. A gente só continua, se movimenta. Vai pra frente, dando vazão ao instinto de progresso que permanece. Ou dá voltas, sucumbindo ao ritmo próprio da vida - esse fenômeno da repetição. Ou enterra-se, sendo fiel ao inevitável movimento, mas por dentro.
Apertei seu ombro, como quem pressiona o botão REC do gravador mais high-tech que pode existir.

- Eu era legal, mas aí, aconteceu isso.

5 de janeiro de 2012

Enquanto preparavam a cicuta, aprendia Sócrates uma canção na flauta. “Para que te servirás?"- perguntaram. “Para sabê-la antes de morrer", respondeu.

28 de dezembro de 2011

Quando se tem muito a dizer, é hora de falar pouco.

12 de dezembro de 2011

Não sei

"Não sei mais sobre o quê escrever."

Passei dias pensando nessa frase. Foi um bilhete deixado antes do suicídio. Ele passou a maior parte da sua vida completamente analfabeto, inicialmente por circunstâncias óbvias, mas depois, ele mesmo admitiu, por um certo receio. Ele trabalhou durante toda sua vida numa grande fazenda de eucaliptos, dedicada exclusivamente para a produção de papel. Sem nenhuma motivação aparente ou expressa, já aos quarenta e poucos anos, aquele camponês com ar eminentemente triste e solitário, resolvera iniciar sua jornada no aprendizado da língua escrita. Ele precisou de cinco anos para escrever sua primeira frase. Algumas professoras diziam que, na verdade, ele já tinha aprendido, mas algo o bloqueava para efetivar e consumar o ato da escrita. Sua primeira frase foi também a sua última. Ninguém sabe dizer mais sobre o acontecido. Não tinha filhos, não tinha família, praticamente não tinha pertences. Colegas de trabalho e da escola, professoras e todo o pessoal da pequena cidade, formada basicamente pela órbita dessa grande fazenda de eucaliptos, ficaram perplexos, silenciosos, atormentados. Tudo já parecia triste e sombrio por demais, quando o prefeito, na verdade, o líder comunitário do vilarejo, toma uma decisão para tentar ajudar a cidade a compreender aquele fato. Ele convida e contrata um escritor. Para escrever a biografia do camponês? Para narrar aquela história trágica? Para dar aulas mais interessantes de escrita na escola local temendo que essa tenha sido a causa do suicídio?
Ele não chegou a balançar a cabeça em nenhuma direção, ou seja, não afirmou nem negou nada. Apenas me disse com um tom muito sincero: "Não sei. Quem sabe, você podia escrever o que o Arlindo não sabia mais."

28 de novembro de 2011

Vida

A luta contra a irrelevância.

18 de outubro de 2011

Nunca dormiu. As vezes, deixava de pagar a conta de luz para cortarem; mas o escuro pode ser tudo, menos sono. Porque o sono é uma mentira necessária, mas ainda assim, uma mentira.
A modernidade é um tropeço da história.

14 de agosto de 2011

Memórias de encantamento

Acabei de receber de uma antiga paixão, trechos resgatados. 

1.
Amor é quando nasce morangos num pé de goiaba.

2.
Queria fazer filhos com seus pés, mas acabei me contentando com seus dedos.

3.
De manhã seus olhos passeiam por mim com um gosto azul. Eles passeiam e eu me perco.

4.
Tenho poucas fichas. Mas aposto todas. As cartas estão na mesa. Aposto também minhas camisas e dou um cheque pré-datado: até onde o seu cheiro me levar.

5.
Há um cantinho da sua língua que me faz acreditar no mundo.

13 de agosto de 2011

O mais fiel

O impossível é provavelmente o parente mais fiel. O pai falta, a mãe nem sempre vai poder. O tio divertido perde a graça. O avô sempre dura pouco. O impossível permanece. Infilitra-se no cobertor e te conta histórias no ouvido. E você as vezes chama de sonho, as vezes de pesadelo, as vezes é apenas aquela voz por dentro que não dá pra silenciar. A natureza do vínculo que temos com o impossível transcende o próprio umbigo. É impossivel permanecer com o cordão umbilical pra sempre. O impossivel é quase sempre um eco, um silencio que diz. Mas sabemos que o impossível é fluente em todas as linguas. Ele se lambuza no dialeto do amor. Porque o amor é esse sentimento que tenta tornar o impossível um analfabeto. O amor esta sempre entre dois movimentos: debochar do retrato do impossível, assim, deslavadamente, ou borrar o mesmo retrato com lágrimas, quando torna-se inevitável reconhecer a paternidade do mesmo. É isso, o impossível tem um parentesco nômade. Não se aquieta em nenhuma casa desse tabuleiro.

"Não sabendo que era impossível, ele foi lá e fez."